Friday, April 24, 2009

O apartheid carioca

O apartheid carioca: um retrocesso na democracia?

Bayard Do Couttto Boiteux

Moro na cidade mais bonita do mundo: ela é um misto de natureza, de população alegre mas não feliz ,de herança cultural mas sobretudo da junção do asfalto e da favela.
É talvez um dos poucos lugares do mundo onde condomínios de luxo convivem com comunidades em que o poder publico passou longe ou simplesmente deixou que fossem ocupadas por um poder paralelo, que as amedronta e exige grandes esforços para a sua sobrevivência.
Minha grande luta e espero que pelo menos nisso, tenha podido herdar valores éticos de meu pai, já que infelizmente não tenho a coragem do mesmo, é buscar soluções para uma melhoria de qualidade dos mais desfavorecidos, através do turismo. Sempre entenderei que o turismo faz uma revolução silenciosa de unir pessoas diferentes,de ideologias ,religiões e classes sociais.O grande objetivo da atividade turística é destruir os muros que existem nas cabeças das pessoas,que inibem uma verdadeira aceitação do diferente.
Nasci numa época em que ainda as escolas públicas eram freqüentadas pela classe média e que grandes valores saíram do Pedro II,para citar apenas um exemplo.Lembro a convivência pacífica com a casa de cômodos,ao lado de nosso edifício na Tijuca e a admiração pelos colegas que ali moravam,como o filho do padeiro que levava bolos em datas festivas,que nos enchiam de alegria e respeito.Guardo até hoje lembranças que me permitem continuar admirando a força de um povo,que a cada dia descobre uma nova falcatrua nas administrações públicas e privadas mas que se ergue e continua lutando.
O Rio talvez apresente na praia o espaço mais democrático de um país,embora a mesma tenha se dividido por segmentos,como Ipanema mas não por classes sociais.
Acabo de ver pela segunda vez o interessante filme israelense Lemon Tree,que fez brotar em mim várias reflexões da divisão de um limoeiro,que passou a ser tratado como assunto de Estado,por uma visão imparcial do terrorismo mas também pela inexistência de um mundo aberto para o respeito das tradições .
A cidade já é dividida naturalmente: incluídos e excluídos. Os excluídos vivem uma pseudo vida no entorno maravilhoso e lutam para conseguir vencer a crise .Por uma total falta de políticas publicas de habitação e proteção das áreas ambientais,a cidade maravilhosa viu crescer nos últimos anos as favelas e os condomínios de luxo que invadiram o verde e que ameaçam a sustentabilidade.E eis que surge uma idéia governamental de voltar ao feudalismo,ao Muro de Berlim ou mesmo ao Apartheid sul africano,criando em volta das favelas,um muro de proteção,para que o proletariado não avance em construções irregulares e se submeta a um choque de ordem,que vai devolver um pouco de paz ao carioca.
Ledo engano e triste realidade, que se cogite que o muro possa trazer algo positivo. Só o simbolismo de segregação que vem embutido no conceito de proteção,torna os excluídos mais uma vez excluídos.É como se já não bastasse o sufoco diário e que passa a ficar contido dentro de um gheto,parecido com aqueles feitos para separar os diferentes.
Lutar contra os muros, que já estão sendo erguidos mas que um dia poderão cair é uma batalha,em que temos que nos empenhar.O Rio turístico não merece ser comparado ao apartheid como vários jornais estrangeiros vem noticiando.O Rio merece respeito,sobretudo aqueles excluídos ,que passam agora a fazer parte do gheto carioca ,sob a bandeira da proteção ambiental....

Bayard Do Coutto Boiteux é professor universitário e coordena o curso de Turismo da UniverCidade,no Rio de Janeiro.

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